A TERRA NOS ABASTECERÁ ATÉ QUANDO?

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A TERRA NOS ABASTECERÁ ATÉ QUANDO?

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A terra nos dá de comer, de beber, o que vestir e calçar. Nos dá o celular, a bicicleta, o carro, nossa casa com tudo dentro. Tudo que precisamos para viver, vem da terra, rios e mar.  A questão é que os habitantes do planeta não param de se se multiplicar, enquanto os recursos naturais, andam a encolher. Essa conta irá fechar até quando?

 

Entre os desafios da continuidade da vida dos homens no planeta azul, a arte de produzir alimentos em  ritmo sintonizado aos índices  da multiplicação das populações, figura como o maior deles. A espécie humana fez um longo caminho pela terra para se chegar aos dias de hoje. Enfrentou guerras, doenças, perigos, a fúria de grandes e pequenos animais, a escassez de comida. Sem medicamentos,  água que não se chegava via torneiras, muita disputa por um lugar para se estabelecer e meios de encher a barriga, chegamos até aqui. Sem os antibiótico, penicilinas, vacinas e tratamentos que dispomos hoje, talvez a humanidade já tivesse perecido, se extinguido da face da terra. Outra coisa é fato irrefutável: sem a evolução da agricultura, os meios inventados de se combater pragas, doenças e produzir em grande escala, seria inimaginável o atual número de habitantes da terra. No conjunto das evoluções, a oferta de comida em grande quantidade e a preços que as pessoas pudessem comprar, foi decisiva para que a humanidade continuasse a viver e criar seus descendentes.

Qualquer um que estudar a história da evolução na terra chegará a conclusão de que vivemos hoje num mar de rosas em comparação com o que nossos ancestrais enfrentaram. Temos tecnologia de ponta e oferta de recursos naturais para produzir tudo quanto usamos. Mas as coisas aqui na terra estão sempre caminhando, mudando… até quando vai durar a lua de mel entre esses ingredientes básicos à sobrevivência? Os recursos naturais do planeta persistirão? Serão suficientes para atender a demanda dos futuros 10 bilhões de habitantes, estimados para existir daqui a 50 anos? Esse contingente populacional irá enfim se estabilizar e aprender a consumir sem desperdiçar metade do que produz?

Fomos conversar com doutor Alfredo Scheid Lopes, Professor da Universidade Federal de Lavras (UFLA) e referência em fertilidade do solo, que também é pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), além de Consultor Técnico da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA). O homem, segundo ele, vai ter que reinventar algumas fórmulas, aprender a usar com muito mais responsabilidade o que a terra ainda  lhe oferecer. Nesse contexto, a oferta de alimentos, continuará muito atrelada ao uso dos fertilizantes, responsáveis por impulsionar a produção e permitir que a humanidade tenha alimento em quantidade suficiente para saciar a sua fome.
No presente momento, de acordo com a ANDA, a quantidade de fertilizantes comercializada por área plantada, com as 16 principais culturas agrícolas, quase dobrou entre os anos de 1991 e 2015. Passou de 164 quilos por hectare para 337 quilos por hectare, com crescimento no consumo de NPK igual a 48,7%. O Brasil é o quarto maior mercado consumidor de fertilizantes do mundo, ficando atrás apenas da China, Índia e Estados Unidos. Temos a maior taxa geométrica de crescimento anual de consumo entre estes quatro maiores mercados (Roquetti Filho, 2014). Tal fato reflete a importância dos investimentos em nutrientes para melhorias na fertilidade dos solos e para a segurança alimentar. Atualmente, o Brasil é 3º maior produtor agrícola do mundo.

Veja quadro comparativo:   slide2                          slide1

 

ENTREVISTA:

VIÉS –  A espécie humana viveu por milênios só com o uso dos fertilizantes “naturais”. A introdução dos fertilizantes minerais inaugurou outra era na agricultura. A era da fartura e oferta em grande escala, que por sua vez resultou em preços mais acessíveis e diversidade de opções. Mas a evolução na Terra não para. O desafio é continuar produzindo comida para uma população que também não para de se multiplicar. Como o senhor analisa esse cenário?

 

ALFREDO – O grande desafio mundial, no médio prazo, é produzir não apenas alimentos, mas também fibras, madeira e combustíveis alternativos, de forma sustentável, para uma população mundial que irá estabilizar próximo aos 10 bilhões de habitantes em 2050. Apesar de desafiador acredito que é perfeitamente plausível atender a crescente demanda mundial principalmente na produção de alimentos promovendo ações específicas em relação aos seguintes pontos: a) redução das perdas atuais de alimentos que, representam de 30 a 40% desde a produção nas propriedades rurais até a mesa do consumidor; b) implementar ações já amplamente conhecidas e de simples execução para aumento da produtividade média de cereais, notadamente na África Subsaariana (1 t/ha em 2005), América Latina e Sul da Ásia (3 t/ha em 2005) para pelo menos 3 e 6  t/ha, respectivamente; c) Promover a divulgação e a expansão de tecnologias de produção desenvolvidas no Brasil, especificamente na região dos Cerrados (plantio direto, integração lavoura/pecuária e integração lavoura/pecuária/floresta) para outras regiões tropicais do planeta e d) promover campanhas, principalmente no países mais pobres, objetivando a educação familiar para alcançar a média de no máximo 2 filhos por casal.

 

VIÉS – Uma planta de milho ou de feijão produz hoje muito mais que há 30, 40 anos. A fartura permitiu que mais pessoas nascessem, crescessem e vivessem por muito mais tempo – e continuassem comendo, comendo… Mas nossos recursos naturais andam fazendo um caminho inverso. A missão de assegurar alimentos para a humanidade ficará com os fertilizantes?

 

ALFREDO – A missão de assegurar alimentos e outros produtos para atender a demanda futura da população mundial, que está em crescimento, ficará não apenas com os fertilizantes (minerais e orgânicos), mas também com a evolução dos outros fatores de produção que são responsáveis pelo aumento da produtividade das culturas. Esses fatores de produção estão relacionados às mais diversas áreas do conhecimento das Ciências Agrárias que são responsáveis pela evolução dos sistemas produtivos. Essas mudanças tem que ocorrer com aumento na eficiência de processos, da sustentabilidade dos sistemas produtivos e diminuição dos custos dos produtos e, acima de tudo, em harmonia com o meio ambiente. Estima-se que a população mundial que era de 2 bilhões de habitantes em 1950 deverá alcançar 8 bilhões em 2025. Em 1950 um hectare de terra alimentava 2 pessoas e em 2025 um hectare terá que alimentar 5 pessoas. Em síntese, a produção de alimentos terá que ser mais e mais eficiente, o que implicará em sistemas mais produtivos por unidade de área e com o mínimo de impacto ao meio ambiente.

VIÉS – Como tudo que é novidade, os fertilizantes minerais foram usados de forma aleatória por muito tempo. Hoje há mais preocupação, conhecimento e controle? Ou não?

ALFREDO – Uma das áreas de conhecimento das Ciências Agrárias que mais evoluiu nas últimas décadas está relacionada às boas práticas para uso eficiente de fertilizantes minerais e orgânicos. Os fertilizantes são insumos que contém na composição nutrientes de plantas que são importantes para a sustentabilidade do processo produção de alimentos, fibras, madeira e combustíveis alternativos. Hoje a tomada de decisão para o uso de fertilizantes, na maioria dos casos é realizada com base em várias ferramentas de diagnose (análises de solos, análises foliares, diagnose visual e histórico da área cultivada).  O uso adequado dessas ferramentas de diagnose permite que a maioria dos grandes produtores rurais, mediante orientações dos engenheiros agrônomos e outros profissionais ligados às ciências agrárias, utilizem hoje os princípios dos 4 C’s na adubação: Fonte Certa, Dose Certa, Época Certa e Local Certo. A aplicação desses princípios de manejo sustentável da fertilidade do solo, infelizmente, não é regra geral em todos os segmentos do agronegócio, pois ainda são insuficientes, principalmente, em número considerável para os agricultores familiares e de subsistência.

 

VIÉS – O uso de forma eficiente e com cautela (sem exageros) é o aconselhável, mas como levar esse conhecimento a quem lida diretamente com os fertilizantes? Qual seria o melhor caminho?

ALFREDO – O problema, neste caso, não se trata de falta de tecnologias de produção sustentáveis em relação ao uso adequado de fertilizantes, pois estas tecnologias foram consolidadas por anos e anos de pesquisas avançadas e são amplamente conhecidas pela área técnica. A limitação da difusão de tecnologias nessa área está ligada a uma grande deficiência no sistema de extensão rural, principalmente para os pequenos produtores rurais. O grande desafio para o futuro é recriar um sistema eficiente de difusão de tecnologias, oficial ou privado, que atenda a todos os segmentos do processo produtivo. A divulgação das tecnologias 4C’s, anteriormente citadas,  principalmente para pequenos produtores e a implementação de programas oficiais de difusão de tecnologias são ações importantes para inclusão social dos agricultores e garantia da segurança alimentar no Brasil.

 

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VIÉS – Apesar da “fartura” as pessoas reclamam muito hoje dos preços dos alimentos hortifrutigranjeiros e principalmente das frutas. As famílias não conseguem comprar variedades para seus filhos. Uvas, peras, maçãs, estão com preços nas nuvens. Por que isso acontece?

ALFREDO – Os problemas dos preços altos desses alimentos são pontuais, não duradouros e na maioria das vezes decorrentes de alterações da lei da oferta e procura. Isso ocorre devido a problemas climáticos (com destaque para seca, granizo, geada, inundações etc.) em um país onde praticamente não existe seguro rural. Em longo prazo, como pode ser observado na figura abaixo, ocorreu no Brasil uma grande diminuição nos preços dos produtos da cesta básica. Uma das maiores contribuições sociais, representada pelo aumento da produtividade da agricultura nos últimos anos devido o uso de tecnologias modernas de produção, como o uso adequado dos nutrientes. A diminuição dos preços reais dos produtos da cesta básica beneficiou todos os cidadãos brasileiros, principalmente aqueles que se encontram no segmento de mais baixa renda na sociedade. De janeiro de 1975 a janeiro de 2011, os preços reais dos produtos da cesta básica caíram para 1/3 do valor original, seguindo uma tendência linear nesse período. Poucos programas de inclusão social governamentais tiveram o sucesso obtido devido a evolução e desenvolvimento da agricultura brasileira.

VIÉS – Ainda há muita desinformação e preconceito com relação aos fertilizantes?

ALFREDO – Infelizmente sim. Essa falta de conhecimento e o preconceito chega ao cúmulo de considerar os fertilizantes minerais (erroneamente chamados de fertilizantes químicos) como venenos e contaminantes do meio ambiente.  Nos últimos anos, tem havido na mídia, principalmente na televisão, uma supervalorização dos produtos orgânicos ou naturais, levando o consumidor a associar o químico como não natural e vice-versa. Acrescenta-se a isso que é recorrente a associação nas informações veiculadas, de maneira generalizada e erroneamente, que o natural ou orgânico é saudável e o químico é danoso ao homem e ao ambiente.

Por definição, químico é aquilo que se obtém por meio da química, ciência que trata da composição, estrutura e propriedades de substâncias e as transformações que elas sofrem. A química, por sua vez, se divide em química orgânica que estuda os compostos de carbono (hidrocarbonetos e seus derivados) e química inorgânica, também chamada de mineral, que estuda os demais elementos e seus compostos. Por outro lado natural é aquilo produzido pela natureza. Depreende-se daí que tanto o orgânico quanto o inorgânico são químicos e que ambos podem ou não ser naturais. Existem diversos compostos orgânicos que podem ser tóxicos aos seres humanos. Um exemplo é o benzeno que podemos inalar recorrentemente durante um simples abastecimento de carro.

É preciso ficar claro que os fertilizantes, tanto os minerais como os orgânicos são utilizados para fornecer às plantas os nutrientes (elementos químicos essenciais como o nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio, enxofre, boro, cloro, cobre, ferro, manganês, zinco, molibdênio e níquel) que as plantas necessitam para o adequado desenvolvimento e, certamente para a produção dos alimentos, fibras, madeiras e formas de energia renovável que utilizamos no nosso dia a dia. Os outros nutrientes essenciais ao desenvolvimento das plantas, carbono, vem da absorção do dióxido de carbono da atmosfera e o hidrogênio vem da água.

 

VIÉS – De que forma os fertilizantes podem contribuir para a preservação dos recursos naturais do planeta?

ALFREDO – Existem vários exemplos que podem ilustrar esse fato. Um dos mais marcantes é o que ocorreu no Brasil e que está ilustrado na figura a seguir. No período de 1970/71, até 2012/13, mesmo estando à produtividade atual para algumas culturas, ainda longe do ponto de máximo econômico com sustentabilidade, a produção das 16 principais culturas no Brasil (base seca) passou de 52,0 para 299,0 milhões de toneladas (aumento de 5,7 vezes). No mesmo período, a produtividade passou de 1,4 para 4,5 toneladas/ha (aumento de 3,2 vezes) e a área cultivada passou de 36 para 67 milhões de hectares (aumento de apenas 1,9 vezes). O aumento da produção foi devido, principalmente, ao aumento da produtividade e não à simplesmente a expansão da área cultivada. Esses dados indicam ainda que, se estivéssemos produzindo hoje (299,0 milhões de toneladas) com a produtividade de 1970/71 (1,4 toneladas/ha), teríamos que ter incorporado ao processo produtivo da agricultura brasileira mais 104,0 milhões de hectares. Em outras palavras, o aumento da produtividade, em decorrência de investimentos em tecnologias mais eficientes, incluindo melhor manejo da fertilidade do solo pelo uso eficiente de fertilizantes, evitou um desmatamento equivalente a 104,0 milhões de hectares. Essa é, talvez, a maior contribuição em termos ambientais resultante desse processo. Dos compromissos de preservação ambientais assumidos durante a ECO-92 no Rio de Janeiro, talvez esse aspecto de diminuição do desmatamento pelo aumento da produtividade da agricultura brasileira tenha sido um dos pontos mais marcantes.

 VIÉS – Como o senhor acredita que será a relação do homem com os fertilizantes daqui há 40, 50 anos? Mais evoluída? Consciente?

ALFREDO – Acredito que já tivemos uma grande evolução no uso eficiente de fertilizantes nas últimas décadas principalmente no que diz respeito às tecnologias que permitem identificar de maneira mais correta quais são os principais problemas relativos à baixa disponibilidade dos nutrientes essenciais nas propriedades agrícolas. Sem dúvida alguma essa conscientização também evoluiu muito em anos recentes, principalmente com as pesquisas que geraram tecnologias de como evitar ou minimizar possíveis efeitos detrimentais ao homem e ao meio ambiente decorrente, principalmente, do uso inadequado dos fertilizantes. Sem dúvida o uso eficiente dos fertilizantes deverá ser cada vez mais difundido no campo.

VIÉS – Acredita que a Terra terá mais fartura de alimentos daqui a um século? Ou terá mais problemas para produzir?

ALFREDO – Assumindo-se um cenário de 10 bilhões de pessoas daqui um século, para manter o padrão atual de produção de alimentos teríamos que aumentar a oferta em pelo menos 40%, ou seja, isso por si só já é um grande desafio. Desse modo a possibilidade de fartura é remota. Esse desafio está relacionado a alguns possíveis problemas que teremos para prover essa demanda adicional, quais sejam: a) aumento de produtividade nas áreas já cultivadas; b) necessidade de expansão de área plantada. Para resolver o primeiro problema será necessária a utilização de mais nutrientes, particularmente fornecidos pelos fertilizantes, com o intuito de atender as demandas crescentes dos materiais genéticos mais produtivos, porem mais exigentes em nutrientes. Isto deverá ser feito, de maneira cada vez mais racional e sustentável.  O segundo problema é mais complexo dado à rejeição da população, particularmente urbana, que é cada vez mais crescente em relação à ideia de necessidade de desmatamento de florestas nativas. As previsões da OECD são de que 1,4 a 1,6 bilhões de novos hectares sejam necessários para suprir parte desta demanda. No curto prazo, a maior parte dessa área deverá ser aberta na América Latina. Nesta região, porém, há muita pressão em relação à ocupação das florestas tropicais e subtropicais.  Outra região com possibilidade de expansão seria a África, onde o sistema fundiário é bastante complexo. Alia-se a isso o fato de que, a utilização de insumos nessa região é ainda bastante incipiente. Entretanto, os seres humanos têm uma incrível capacidade de encontrar soluções quando aparecem desafios dos mais diversos.

 

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